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De surpresa em Newark

sáb, 23/10/10
por Francisco Quinteiro Pires |
categoria Planeta Brasil

Newark tem a cara do Brasil. Não dá para pensar nessa cidade de New Jersey sem a influência da imigração brasileira. Tanto é que o Planeta Brasil, antes de viajar pelos EUA dentro de um motor home, fazia visitas constantes ao lugar, que testemunhou a decadência industrial e a luta pelos direitos civis. Há quem pense que não há mais nada para mostrar em Newark, de tão explorada pelo programa. Esse quem se engana. No programa de hoje, surpreendemos Newark com uma visita sem programação.

Chegamos de surpresa ao comércio da Ferry Street, conhecida informalmente como Portugal Avenue, dada a quantidade de portugueses que moram nessa rua do Ironbound, um dos bairros de Newark. Entramos sem convite em dois salões de beleza, que provam o cuidado dos brasileiros com a estética. Ouvimos histórias inacreditáveis, como a do cabeleireiro que entrou nos EUA fantasiado de Michael Jackson. Ele convenceu as autoridades norte-americanas de que estava a caminho do enterro do rei do pop, ocorrido no ano passado. Conversamos com um joalheiro, que hoje tem a própria loja e um dia vendeu joias de porta em porta. O filho e a esposa confessaram que foram tempos difíceis, mas valeram o esforço e a compreensão.

Dali corremos para a prefeitura da cidade, administrada por Cory Booker. Lá trabalha um brasileiro cuja opinião é interessantíssima. Ele defende a ideia de que os brasileiros devem adotar Newark como a sua terra verdadeira, lutar por ela e não vê-la apenas como uma oportunidade para ganhar dólares. Ele pede comprometimento com os problemas locais. Pede envolvimento dos moradores para criar um lugar melhor. Pois será assim que o brasileiro ganhará o respeito de todos, até dos norte-americanos. Nessa hora, ele se emocionou imensamente.

O mais curioso é que escutamos algo parecido de um dono de produtora, que trabalhou em várias ocasiões como repórter cinematográfico do Planeta Brasil. Ele fez uma comparação elucidativa. Os imigrantes brasileiros desejam viver a ilusão de um terceiro país, os Estados Unidos do Brasil, que reuniriam as melhores qualidades dos ianques e dos tupiniquins. Mas isso está fora de cogitação. É preciso aceitar a realidade para dela extrair alegria e sentido. Foi isso que o nosso repórter cinematográfico fez. Faz pouco, ele obteve o green card, que lhe deu a possibilidade de rever o filho, oito anos depois de deixar o Brasil. Nesse tempo, ele suportou a saudade porque conheceu um grande amor, uma portuguesa. E porque, sempre que pôde, foi ao parque do lado de casa jogar uma pelada.

No fim da tarde, os brasileiros se reúnem no gramado do Riverbank Park para mostrar que o nosso é o melhor futebol do mundo, é o pentacampeão. Ao menos, em teoria. Vimos alguns pernas-de-pau. Mas de que importa? Ali eles se sentem mais perto de casa. Essa possibilidade de alívio significa muita coisa para quem sabe que a saudade é capaz até de matar.

As complicações de Newark

qui, 02/09/10
por Francisco Quinteiro Pires |
categoria Planeta Brasil

Maior cidade de New Jersey – o Garden State -, Newark tem uma história complicada. Altamente industrializada nos séculos 19 e 20, ela abriga uma comunidade considerável de brasileiros, sobretudo no Ironbound, região no East Ward, um dos cinco bairros da cidade. Para entender melhor a presença dos imigrantes brasileiros no Ironbound, nem só a proximidade de Nova York – se derem sorte, em meia hora de trem as pessoas podem chegar a Manhattan – é uma explicação suficiente. O estabelecimento de compatriotas em Newark tem a ver com os portugueses, vindos para a cidade em duas ocasiões. Primeiro, no começo do século passado e, depois, nos anos 1970, quando ocorreu a Revolução dos Cravos, que depôs o regime ditatorial de Portugal. Os lusos foram responsáveis por manter o comércio ativo de uma cidade que assistia ao êxodo das pessoas abastadas. Foi isso e um pouco mais que o Planeta Brasil aprendeu ao entrevistar João, mineiro há 25 anos em Newark e funcionário da prefeitura. Ele nos contou que 1967 foi crucial para a história da cidade. Em julho daquele ano, houve uma série de distúrbios públicos, causadores de dezenas de mortes, realizados pelos negros. Eles se manifestaram, no contexto da luta pelos direitos civis, contra a discriminação e a opressão. A população negra é grande e elegeu políticos afroamericanos para os cargos públicos da cidade. Os incêndios que destruíram Newark durante os distúrbios públicos transformaram o seu futuro. Depois de perder o foco industrial, a cidade sofreu com a violência. Em 1996, chegou a ser a mais perigosa dos EUA, segundo a revista Time. A década atual, ora chegando ao fim, é marcada pelo processo de revitalização. A prefeitura investiu no traçado urbanístico. O período também se tornou notório com a sucessão política. Um documentário que conta bem essa história tem o nome de Street Fight. Acompanha a campanha de Cory Booker, o atual prefeito, para suceder Sharpe James em 2002. O filme de Marshall Curry revela cenas estarrecedoras sobre James, parecido com aqueles coronéis políticos bem conhecidos do eleitorado brasileiro. James se comportava como um homem acima da lei. Apesar do comportamento autoritário, ele bateu Booker naquela eleição. Negro e democrata, Cory Booker voltou à carga em 2006, quando foi vitorioso. À época, ele era cotado como um candidato promissor à Presidência dos EUA. Para analistas, ao se eleger prefeito de Newark, ele teria se complicado com os exigentes desafios da cidade, o que lhe roubaria popularidade. A Casa Branca foi habitada por outro negro, Barack Obama. E Newark, casa de tantos imigrantes – além dos brasileiros e portugueses, há muitos porto-riquenhos, equatorianos, dominicanos, jamaicanos, haitianos, africanos, espanhóis, italianos, irlandeses -, continua complicada, lutando contra o passado e pelo futuro.

Francisco Pires – Planeta Brasil – TV Globo Internacional



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