qua, 22/09/10
por Francisco Quinteiro Pires |
Tudo é outono nas montanhas da Pennsylvania. Hoje mudamos de camping. Estamos acampados perto de Pittsburgh, cidade onde nasceu Andy Warhol, de passado industrial transformado em um centro de negócios dinâmico. No caminho para cá, de certa forma tranquilo, apesar da chuva, das montanhas e dos fortes ventos, vimos os efeitos da nova estação. As diferentes cores das folhas vão nos acompanhar nos próximos meses. Como disse, isso é um prenúncio de boas novas, sentidas quando o Planeta Brasil chegou ao Amish Country. A nossa passagem pela Pennsylvania, que dura mais de semana, nos mostrou uma realidade diferente da que ouvimos falar. Pesquisas e entrevistados nos contaram que os moradores do State of Independence seriam rudes. Ao contrário. O que encontramos foi muita educação, espirituosidade e curiosidade. Neste Estado, muitos perguntam o que significa Planeta Brasil escrito no carro e no motor home. Explicamos que é um programa de televisão que viaja os Estados Unidos atrás de imigrantes brasileiros. Eles ficam impressionados. Querem saber bem mais sobre essa aventura. Dá até para sentir um certo orgulho vindo de gente tão orgulhosa. Quando percebemos o espanto dos norte-americanos, ganhamos o nosso dia de tanto trabalho. Soubemos que em Pittsburgh existe um sotaque único. Espero que a nossa percepção, a de que os moradores da Pennsylvania são os mais bacanas, continue contrariando pesquisas e opiniões alheias nessa cidade, a última parada antes de Ohio, o próximo Estado do Planeta Brasil.
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qui, 02/09/10
por Francisco Quinteiro Pires |
Maior cidade de New Jersey – o Garden State -, Newark tem uma história complicada. Altamente industrializada nos séculos 19 e 20, ela abriga uma comunidade considerável de brasileiros, sobretudo no Ironbound, região no East Ward, um dos cinco bairros da cidade. Para entender melhor a presença dos imigrantes brasileiros no Ironbound, nem só a proximidade de Nova York – se derem sorte, em meia hora de trem as pessoas podem chegar a Manhattan – é uma explicação suficiente. O estabelecimento de compatriotas em Newark tem a ver com os portugueses, vindos para a cidade em duas ocasiões. Primeiro, no começo do século passado e, depois, nos anos 1970, quando ocorreu a Revolução dos Cravos, que depôs o regime ditatorial de Portugal. Os lusos foram responsáveis por manter o comércio ativo de uma cidade que assistia ao êxodo das pessoas abastadas. Foi isso e um pouco mais que o Planeta Brasil aprendeu ao entrevistar João, mineiro há 25 anos em Newark e funcionário da prefeitura. Ele nos contou que 1967 foi crucial para a história da cidade. Em julho daquele ano, houve uma série de distúrbios públicos, causadores de dezenas de mortes, realizados pelos negros. Eles se manifestaram, no contexto da luta pelos direitos civis, contra a discriminação e a opressão. A população negra é grande e elegeu políticos afroamericanos para os cargos públicos da cidade. Os incêndios que destruíram Newark durante os distúrbios públicos transformaram o seu futuro. Depois de perder o foco industrial, a cidade sofreu com a violência. Em 1996, chegou a ser a mais perigosa dos EUA, segundo a revista Time. A década atual, ora chegando ao fim, é marcada pelo processo de revitalização. A prefeitura investiu no traçado urbanístico. O período também se tornou notório com a sucessão política. Um documentário que conta bem essa história tem o nome de Street Fight. Acompanha a campanha de Cory Booker, o atual prefeito, para suceder Sharpe James em 2002. O filme de Marshall Curry revela cenas estarrecedoras sobre James, parecido com aqueles coronéis políticos bem conhecidos do eleitorado brasileiro. James se comportava como um homem acima da lei. Apesar do comportamento autoritário, ele bateu Booker naquela eleição. Negro e democrata, Cory Booker voltou à carga em 2006, quando foi vitorioso. À época, ele era cotado como um candidato promissor à Presidência dos EUA. Para analistas, ao se eleger prefeito de Newark, ele teria se complicado com os exigentes desafios da cidade, o que lhe roubaria popularidade. A Casa Branca foi habitada por outro negro, Barack Obama. E Newark, casa de tantos imigrantes – além dos brasileiros e portugueses, há muitos porto-riquenhos, equatorianos, dominicanos, jamaicanos, haitianos, africanos, espanhóis, italianos, irlandeses -, continua complicada, lutando contra o passado e pelo futuro.
Francisco Pires – Planeta Brasil – TV Globo Internacional
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